Quinta-feira, Novembro 05, 2009
There is no Matrix
Alguma coisa aconteceu por aqui.
Ou melhor, falta alguma coisa acontecer por aqui.
E dessa ausência surge a interrogação: o que aconteceu por aqui?
Nada mais é escrito, comentado, alucinado. Nada mais é, senão memória nos servidores em porões da Internet, nos neurônios de quem leu e nos sonhos de quem viveu.
Mas o presente não existe, o que é muito triste, rima barata que o poeta esqueceu.
Talvez alguma coisa tenha acontecido com o autor.
Sumiu, se escondeu no Polo norte enquanto ainda há gelo por lá. Procurando pelo bom velhinho, perdendo os dedos no frio.
Foi assassinado por algum inimigo esquecido, amor traído, parente ofendido.
Foi pego numa rede de intrigas e conspiração.
Foi linchado pela multidão, preso político de oposição, jaz esmagado numa estrada vicinal, atropelado.
Apodrece aos poucos, emparedado, cobrindo a parede com bolor, a casa com cheiro de fossa aberta, que ninguém nota.
Dizem ainda que está no hospício, babando restos da indústria farmacêutica, tentando se matar quando tem uma chance. Será que a camisa-de-força é apertada demais?
Testemunhas já o avistaram vivendo entre índios no mar verde da Amazônia, em uma cabana de pescadores numa ilha afogada no Pacífico, nas sarjetas sujas da madrugada de Las Vegas, nos porões de um navio mercante enferrujado, em incontáveis fotos em perfis do orkut e facebook.
Mas quem pode acreditar em testemunhas? Discos voadores?
Pior se estiver sem novas ideias. Para um autor, é a mesma coisa que estar morto.
Será a correria do dia a dia? Mesmo sem tempo, alguma esperança deve haver, já que tempo mesmo nunca existe para certas coisas. Por que, então, a ausência?
Há alguém aí? Aqui?
Essa fagulha, vinda sabe-se lá de onde, diz que sim.
Se a alma ainda vive, ectoplasma eletromagnético ou encarnado, deve existir ainda um fio de esperança.
______________________________
"For my part I know nothing with any certainty, but the sight of the stars makes me dream."
Ou melhor, falta alguma coisa acontecer por aqui.
E dessa ausência surge a interrogação: o que aconteceu por aqui?
Nada mais é escrito, comentado, alucinado. Nada mais é, senão memória nos servidores em porões da Internet, nos neurônios de quem leu e nos sonhos de quem viveu.
Mas o presente não existe, o que é muito triste, rima barata que o poeta esqueceu.
Talvez alguma coisa tenha acontecido com o autor.
Sumiu, se escondeu no Polo norte enquanto ainda há gelo por lá. Procurando pelo bom velhinho, perdendo os dedos no frio.
Foi assassinado por algum inimigo esquecido, amor traído, parente ofendido.
Foi pego numa rede de intrigas e conspiração.
Foi linchado pela multidão, preso político de oposição, jaz esmagado numa estrada vicinal, atropelado.
Apodrece aos poucos, emparedado, cobrindo a parede com bolor, a casa com cheiro de fossa aberta, que ninguém nota.
Dizem ainda que está no hospício, babando restos da indústria farmacêutica, tentando se matar quando tem uma chance. Será que a camisa-de-força é apertada demais?
Testemunhas já o avistaram vivendo entre índios no mar verde da Amazônia, em uma cabana de pescadores numa ilha afogada no Pacífico, nas sarjetas sujas da madrugada de Las Vegas, nos porões de um navio mercante enferrujado, em incontáveis fotos em perfis do orkut e facebook.
Mas quem pode acreditar em testemunhas? Discos voadores?
Pior se estiver sem novas ideias. Para um autor, é a mesma coisa que estar morto.
Será a correria do dia a dia? Mesmo sem tempo, alguma esperança deve haver, já que tempo mesmo nunca existe para certas coisas. Por que, então, a ausência?
Há alguém aí? Aqui?
Essa fagulha, vinda sabe-se lá de onde, diz que sim.
Se a alma ainda vive, ectoplasma eletromagnético ou encarnado, deve existir ainda um fio de esperança.
______________________________
"For my part I know nothing with any certainty, but the sight of the stars makes me dream."
Quinta-feira, Abril 09, 2009
Livro de História do Brasil - Sec XXI - O Império do Saudável
Não suficiente a liberdade alheia, as garras rochosas da Repressão escolhem novas vítimas no início do século XXI. Como vimos nos capítulos introdutórios, milhares de anos evoluindo mentes símias que naquela época ainda precisavam de inimigos, parias, bois-de-piranha e bodes-expiatórios. A cruzada, nesse período pós-moderno, é pelo corpo saudável, vivam os narcisos e todos os espelhos do mundo digital.
Fascistas simpáticos a ordem médica e a saúde como fim absoluto assaltaram o legislativo do politicamente correto; nasce o populismo da boa forma.
Assim, em 2009, uma lei paulista proíbe o fumo em todos os lugares coletivos fechados, públicos ou privados.
Em julho de 2011, os fumantes foram obrigados por lei a usar uma identificação no braço, já que seus corpos liberavam perigosas excreções cancerígenas. O mesmo símbolo tornou-se obrigatório, no ano seguinte, para a porta de suas residências, onde ainda tinham autorização para o vício.
Como a fumaça afeta a oxigenação cerebral, além das alterações psicoativas da nicotina e outras substâncias, em 2016 os fumantes foram tomados por incapazes, perdendo seus empregos e propriedades para o governo e não fumantes.
A seguir, em prol da saúde coletiva, a chamada corja fétida foi transferida para guetos enfumaçados, criados ou próximos a aterros sanitários, ou em prédios abandonados de antigos parques industriais degradados.
Os viciados em gorduras proibidas, banidas oficialmente em 2013, além dos obesos, foram mandados meses depois, sufucando o ar já abafado com o cheiro de fritura e churrasco clandestino.
Em 2022 começa a reciclagem em massa, os não-saudáveis transferidos em modernos trem-bala de suas respectivas zonas de detenção até a EcoFábrica de Reaproveitamento e Esterilização de Orgãos Humanos Contaminados, vulga Solução Final.
Hail Saúde!
_____
“Freedom is not worth having if it does not connote freedom to err. It passes my comprehension how human beings, be they ever so experienced and able, can delight in depriving other human beings of that precious right.”
Fascistas simpáticos a ordem médica e a saúde como fim absoluto assaltaram o legislativo do politicamente correto; nasce o populismo da boa forma.
Assim, em 2009, uma lei paulista proíbe o fumo em todos os lugares coletivos fechados, públicos ou privados.
Em julho de 2011, os fumantes foram obrigados por lei a usar uma identificação no braço, já que seus corpos liberavam perigosas excreções cancerígenas. O mesmo símbolo tornou-se obrigatório, no ano seguinte, para a porta de suas residências, onde ainda tinham autorização para o vício.
Como a fumaça afeta a oxigenação cerebral, além das alterações psicoativas da nicotina e outras substâncias, em 2016 os fumantes foram tomados por incapazes, perdendo seus empregos e propriedades para o governo e não fumantes.
A seguir, em prol da saúde coletiva, a chamada corja fétida foi transferida para guetos enfumaçados, criados ou próximos a aterros sanitários, ou em prédios abandonados de antigos parques industriais degradados.
Os viciados em gorduras proibidas, banidas oficialmente em 2013, além dos obesos, foram mandados meses depois, sufucando o ar já abafado com o cheiro de fritura e churrasco clandestino.
Em 2022 começa a reciclagem em massa, os não-saudáveis transferidos em modernos trem-bala de suas respectivas zonas de detenção até a EcoFábrica de Reaproveitamento e Esterilização de Orgãos Humanos Contaminados, vulga Solução Final.
Hail Saúde!
_____
“Freedom is not worth having if it does not connote freedom to err. It passes my comprehension how human beings, be they ever so experienced and able, can delight in depriving other human beings of that precious right.”
Quarta-feira, Dezembro 31, 2008
Amanhã nunca chega
Tanto o calendário Maia quanto Nostradamus escolheram 2012 para o fim do mundo, um alinhamento cósmico que só acontece de vez em nunca.
Provável mesmo é que em 2013 escolham uma nova data pro fim, esse Apocalipse sempre é adiado, para infelicidade da imensa maioria que realmente torce para que alguma grande mudança aconteça em suas vidas, catástrofe ou não.
Mas amanhã ainda é 2009, o que nos deixa com um bocado de tempo para aproveitarmos esse mundo enquanto ele dura.
Assim, sem códigos cifrados malucos, faço minhas próprias previsões, na lata:
- As praias vão amanhecer cheias de garrafas, velas e flores rejeitadas pelo mar. E alguns bêbados.
- Meus cães vão enlouquecer nas primeiras horas de 2009. Malditos fogos.
- A dieta prometida não dura mais de um mês; ou começa só depois do Carnaval.
- O mesmo para os exercícios físicos.
- Alguns vão parar de fumar. Outros vão começar.
- A grande maioria das pessoas vai escrever errado. Quem teve a genial ideia do bug ortográfico?
- Algum cheque será datado para janeiro de 2008.
- Vou comemorar trinta voltas de existência em torno desse sol, achando isso um bocado estranho.
- Vou fazer o que eu realmente quero menos do que gostaria, e o que não quero infinitamente mais.
- Não vou ganhar na mega-sena, mesmo apostando e sonhando toda vez.
- Vou prometer, mais de uma vez, parar de escrever assim de impulso. E não vou cumprir.
- Amanhã vou me arrepender da ressaca.
Feliz esperança renovada. Adeus fantasmas de outrora.
"As for the future, your task is not to foresee it, but to enable it."
Provável mesmo é que em 2013 escolham uma nova data pro fim, esse Apocalipse sempre é adiado, para infelicidade da imensa maioria que realmente torce para que alguma grande mudança aconteça em suas vidas, catástrofe ou não.
Mas amanhã ainda é 2009, o que nos deixa com um bocado de tempo para aproveitarmos esse mundo enquanto ele dura.
Assim, sem códigos cifrados malucos, faço minhas próprias previsões, na lata:
- As praias vão amanhecer cheias de garrafas, velas e flores rejeitadas pelo mar. E alguns bêbados.
- Meus cães vão enlouquecer nas primeiras horas de 2009. Malditos fogos.
- A dieta prometida não dura mais de um mês; ou começa só depois do Carnaval.
- O mesmo para os exercícios físicos.
- Alguns vão parar de fumar. Outros vão começar.
- A grande maioria das pessoas vai escrever errado. Quem teve a genial ideia do bug ortográfico?
- Algum cheque será datado para janeiro de 2008.
- Vou comemorar trinta voltas de existência em torno desse sol, achando isso um bocado estranho.
- Vou fazer o que eu realmente quero menos do que gostaria, e o que não quero infinitamente mais.
- Não vou ganhar na mega-sena, mesmo apostando e sonhando toda vez.
- Vou prometer, mais de uma vez, parar de escrever assim de impulso. E não vou cumprir.
- Amanhã vou me arrepender da ressaca.
Feliz esperança renovada. Adeus fantasmas de outrora.
"As for the future, your task is not to foresee it, but to enable it."
Sexta-feira, Dezembro 05, 2008
Neuropsicanálise - GSP e Superego
Já faz um tempo que pretendo compilar artigos científicos na herculana tentativa de criar uma ponte entre resultados neurocientíficos publicados e conceitos psicanalíticos.
Ainda que Lacan afirme que tal diálogo é impossível, dada a natureza objetiva da ciência e o referencial subjetivo da psicanálise, acredito que Freud só deixou de lado o método científico pela precariedade da Neurologia de sua época. Hoje, principalmente com os avanços da neuro-imagem, essa 'alma' que Freud mergulhou e explorou magistralmente está mais acessível.
Obviamente a Psicanálise e a Neurociência (influenciada hoje pelo enfoque Cognitivista; e em menor grau pelo Evolucionista) são linguagens completamente distintas. Qualquer tradução direta, de um lado ao outro, provocará distorções e infinitas discussões sobre a exatidão dos termos. Peço, assim, certa flexibilidade de raciocínio ao leitor, uma vez que o objetivo é apontar como a lógica inerente ao fenômeno é a mesma: a mente humana e suas vicissitudes.
Para uma referência rápida sobre os assuntos, sugiro:
Neurociências - Desvendando o Sistema Nervoso. Mark F. Bear - Barry W. Connors - Michael A. Paradiso. Artmed Editora. 2ª Edição.
Vocabulário da Psicanálise. Jean Laplanche -Jean Bertrand Pontalis. Editora Martins Fontes.
____________________________
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18838634?dopt=Abstract
Neural response to self- and other referential praise and criticism in generalized social phobia.
Blair K, Geraci M, Devido J, McCaffrey D, Chen G, Vythilingam M, Ng P, Hollon N, Jones M, Blair RJ, Pine DS.
Mood and Anxiety Program, National Institute of Mental Health, 15K North Dr, MSC 2670, Bethesda, MD 20892, USA. peschark@mail.nih.gov
CONTEXT: Generalized social phobia (GSP) is characterized by fear/avoidance of social situations. Previous studies have examined the neural responses in GSP to one class of social stimuli, facial expressions. However, studies have not examined the neural response in GSP to another equally important class of social stimuli, the communication of praise or criticism. OBJECTIVE: To examine the neural response to receipt of praise or criticism in GSP; specifically, to determine whether patients with GSP show an increased response to the receipt of both praise and criticism and whether self-relevance modulates this relationship. DESIGN: Case-control study. SETTING: Government clinical research institute. PARTICIPANTS: Unmedicated individuals with GSP (n = 17) and age-, IQ-, and sex-matched healthy comparison individuals (n = 17). MAIN OUTCOME MEASURE: Blood oxygenation level-dependent signal, as measured via functional magnetic resonance imaging. During functional magnetic resonance imaging scans, individuals read positive (eg, You are beautiful), negative (eg, You are ugly), and neutral (eg, You are human) comments that could be either about the self or about somebody else (eg, He is beautiful). RESULTS: Hypothesized significant group x valence x referent interactions were observed within regions of the medial prefrontal cortex and bilateral amygdala. In these regions, the patients with GSP showed significantly increased blood oxygenation level-dependent responses, relative to comparison individuals, to negative comments (criticism) referring to themselves. However, in contrast, there were no significant group differences with respect to negative comments referring to others or neutral or positive comments referring to self or others. CONCLUSIONS: These results implicate the medial prefrontal cortex, involved in the representation of the self, together with the amygdala, in the pathophysiology of GSP. Further, findings demonstrate a meaningful effect of psychological context on neural-circuitry hyperactivity in GSP.
***
A relação aqui com a Psicanálise é direta, se consideramos a instância psíquica Supereu (Superego). Tanto às funções que são hoje atribuídas ao córtex pré-frontal; quanto seu desenvolvimento (maturação) tardio - que em muito coincide cronologicamente com o desenvolvimento psíquico proposto pela psicanálise.
É evidente que não estou apontando para uma área anatômica e dizendo "eis o Superego", o que seria ridículo. Mas é possível sim atribuirmos o que Freud nomeou Isso (Id) aos fenômenos funcionais relacionados ao sistema mesolímbico (mais primitivo evolutivamente), e sua complexa interação (e ativação) com o córtex pre-frontal.
Numa 'tradução' livre, o que esse artigo diz em psicanalês é: o quadro psicopatológico rotulado de 'fobia social generalizada' está diretamente relacionada à severidade superegóica.
_____
Pensando no desenvolvimento e as semelhanças cronológicas, futuramente vou procurar artigos sobre a retração do mecanismo de recompensas (neurociência), e a possível relação com a resolução do Complexo de Édipo e a Latência subsequente...
"I love those who yearn for the impossible."
Ainda que Lacan afirme que tal diálogo é impossível, dada a natureza objetiva da ciência e o referencial subjetivo da psicanálise, acredito que Freud só deixou de lado o método científico pela precariedade da Neurologia de sua época. Hoje, principalmente com os avanços da neuro-imagem, essa 'alma' que Freud mergulhou e explorou magistralmente está mais acessível.
Obviamente a Psicanálise e a Neurociência (influenciada hoje pelo enfoque Cognitivista; e em menor grau pelo Evolucionista) são linguagens completamente distintas. Qualquer tradução direta, de um lado ao outro, provocará distorções e infinitas discussões sobre a exatidão dos termos. Peço, assim, certa flexibilidade de raciocínio ao leitor, uma vez que o objetivo é apontar como a lógica inerente ao fenômeno é a mesma: a mente humana e suas vicissitudes.
Para uma referência rápida sobre os assuntos, sugiro:
Neurociências - Desvendando o Sistema Nervoso. Mark F. Bear - Barry W. Connors - Michael A. Paradiso. Artmed Editora. 2ª Edição.
Vocabulário da Psicanálise. Jean Laplanche -Jean Bertrand Pontalis. Editora Martins Fontes.
____________________________
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18838634?dopt=Abstract
Neural response to self- and other referential praise and criticism in generalized social phobia.
Blair K, Geraci M, Devido J, McCaffrey D, Chen G, Vythilingam M, Ng P, Hollon N, Jones M, Blair RJ, Pine DS.
Mood and Anxiety Program, National Institute of Mental Health, 15K North Dr, MSC 2670, Bethesda, MD 20892, USA. peschark@mail.nih.gov
CONTEXT: Generalized social phobia (GSP) is characterized by fear/avoidance of social situations. Previous studies have examined the neural responses in GSP to one class of social stimuli, facial expressions. However, studies have not examined the neural response in GSP to another equally important class of social stimuli, the communication of praise or criticism. OBJECTIVE: To examine the neural response to receipt of praise or criticism in GSP; specifically, to determine whether patients with GSP show an increased response to the receipt of both praise and criticism and whether self-relevance modulates this relationship. DESIGN: Case-control study. SETTING: Government clinical research institute. PARTICIPANTS: Unmedicated individuals with GSP (n = 17) and age-, IQ-, and sex-matched healthy comparison individuals (n = 17). MAIN OUTCOME MEASURE: Blood oxygenation level-dependent signal, as measured via functional magnetic resonance imaging. During functional magnetic resonance imaging scans, individuals read positive (eg, You are beautiful), negative (eg, You are ugly), and neutral (eg, You are human) comments that could be either about the self or about somebody else (eg, He is beautiful). RESULTS: Hypothesized significant group x valence x referent interactions were observed within regions of the medial prefrontal cortex and bilateral amygdala. In these regions, the patients with GSP showed significantly increased blood oxygenation level-dependent responses, relative to comparison individuals, to negative comments (criticism) referring to themselves. However, in contrast, there were no significant group differences with respect to negative comments referring to others or neutral or positive comments referring to self or others. CONCLUSIONS: These results implicate the medial prefrontal cortex, involved in the representation of the self, together with the amygdala, in the pathophysiology of GSP. Further, findings demonstrate a meaningful effect of psychological context on neural-circuitry hyperactivity in GSP.
***
A relação aqui com a Psicanálise é direta, se consideramos a instância psíquica Supereu (Superego). Tanto às funções que são hoje atribuídas ao córtex pré-frontal; quanto seu desenvolvimento (maturação) tardio - que em muito coincide cronologicamente com o desenvolvimento psíquico proposto pela psicanálise.
É evidente que não estou apontando para uma área anatômica e dizendo "eis o Superego", o que seria ridículo. Mas é possível sim atribuirmos o que Freud nomeou Isso (Id) aos fenômenos funcionais relacionados ao sistema mesolímbico (mais primitivo evolutivamente), e sua complexa interação (e ativação) com o córtex pre-frontal.
Numa 'tradução' livre, o que esse artigo diz em psicanalês é: o quadro psicopatológico rotulado de 'fobia social generalizada' está diretamente relacionada à severidade superegóica.
_____
Pensando no desenvolvimento e as semelhanças cronológicas, futuramente vou procurar artigos sobre a retração do mecanismo de recompensas (neurociência), e a possível relação com a resolução do Complexo de Édipo e a Latência subsequente...
"I love those who yearn for the impossible."
Terça-feira, Novembro 11, 2008
Ultraviolet amphibian dreams
Quinta-feira, Novembro 06, 2008
Entalado na garganta
Na briga com espinhos afiados e mortais, todo prazer do jantar esvai-se rápido, insatisfeito e complicado. Nem gosto tanto de peixe, mas o velho devora ágil, animal treinado nas artes da pesca e comida farta. Hoje é dia de celebrar, disse ele, esse peixe é iguaria rara e cara, só esse chef sabe preparar corretamente. O nome escapou-me, inteligível e desinteressante. Não cheguei a abrir o cardápio, mas o couvert prometia uma bela refeição. Um suspiro me escapa discreto, enquanto deito os talheres no prato.
Incapaz de lembrar que não gosto de beber enquanto como, meu tio pede ao garçom mais dois uísques, ainda que em meu copo os 21 anos de paladar empoçaram pela metade, quente e desagradável. Mas ele está empolgado e feliz, chegou o grande dia. Vejo a gordura brilhar em seus lábios glutões, a realização de finalmente anunciar sua aposentadoria, e entregar a mim o trono de seu legado, iluminando seus olhos de predador. Nos preparamos toda uma vida para isso, brindou-se, viva a conquista ao fim da grande jornada.
A única coisa errada sou eu, algo dentro de mim que não condiz com o momento. Por que sinto esse vazio, agora que venci?
Sonho acordado, em desacordo comigo mesmo.
Meu tio fez muito sucesso e riqueza na década de noventa, quando trocaram do dinheiro as caretas de patriarcas e coronéis carrancudos por animais selvagens, fauna brasileira. Viva a Real selva capitalista moderna, livre de zeros inúteis e planos desastrados.
Negociatas, contratos milionários e licitações importantes, ele soube explorar bandeirante as privatizações e a abertura econômica. Hoje me entrega o complexo império, ele já começando caducar, maquinaria gasta e murcha embaixo de banha e rugas. Dele aprendi tudo que sei profissionalmente, e contaminei-me com certos hábitos ridículos, vícios poderosos e múltiplos prazeres.
Será que isso que sinto é a falta de companhia feminina nessa mesa? Pode somente um homem idoso, e um já passando de meio século, jantando a sós, ser tão deprimente?
Minha vida é ímpar, eu ainda a procura de um par. Companheiras foram algumas, que até alucinei casar, mas eram todas executivas – não de terno e gravata como eu, mas também desinteressadas em qualquer ato por menos de um milhar de beija-flores. Existe diferença entre meu sucesso e o trabalho delas, até daquelas que por uma garoupa você leva tudo que puder? Moralmente não, sexualmente sequer, se não na ordem dos fatores, quem paga, quem recebe.
E o tal amor deixei em uma fotografia de uma garota de 14 anos, sorrindo décadas atrás. Minha vida atrás.
Eu preocupado em encontrá-la, como ao acaso na saída da escola, para um cortejo encabulado. Minha mãe veio me dizer que, ao fim das aulas, iria me mandar para a capital: São Paulo é o mundo do Brasil, vai com teu tio que ele tá rico por lá. Com questões muito mais importantes na época, no caso saber se o atacante do meu time jogaria na final do dia seguinte, respondi que tudo bem, achava ótimo. E assim, aos 15 anos, vinha trabalhar nessa cidade.
Coitada de mamãe, morreu só, nem tive tempo de transferi-la para um hospital melhor (e mais perto). Só fui visitar seu túmulo uma vez. Ela fez questão de ficar por lá, cidadezinha típica de Minas que outrora também chamei de minha.
Engolindo o resto etílico antes que o garçom levasse, pensei como daria tudo para voltar. Mas dessa tal saudade sempre corri, fraco que sou, não gosto da dor que ela provoca. Por que agora ela resolve apertar meu peito desse jeito, nessa noite que deveria ser o grande momento de minha carreira?
Meu tio não parava de falar, entre um gole e uma garfada, infinitos conselhos, histórias e obrigações que eu já sabia de cor. E brindes e gargalhadas, tentava me contaminar com sua mania, insistindo para que eu bebesse mais, feliz como nunca o vi.
E eu com dificuldades cada vez maiores de sustentar o sorriso, amarelando e começando a doer no meu rosto. De maduro à podre, logo caiu. Nunca me vi tão infeliz.
Ou só agora, desse meu cume, que percebo tal fato? Posso comprar, a vista e em espécie, essa felicidade que me escapa? Tenho poder nas mãos, tenho os bolsos transbordando e toda tralha inútil que quero ter.
Olhando fixo para o prato, e sua carcaça semidevorada, minha mente corre para longe, para uma paz e satisfação que sei que perdi. Quando? Onde?
A saudade esmaga tanto que é impossível ignorá-la. Deixei com meus sonhos, minhas esperanças e possibilidades alguma coisa que nunca cheguei a ter. Não tive tempo, não lhes dei atenção. Estala em minha cabeça, olhando o caminho que percorri e aonde vim parar, que fui um idiota. Que porra eu fiz da minha vida, pra que tanto dinheiro assim? O que vou fazer com ele?
A imagem da casa de minha mãe, uma fazenda e a vida crescendo vagarosa em volta, paz bucólica, sincera e tola, é a única certeza que tenho. É a única resposta para esse buraco em mim.
Respirei fundo, bebi tanto do novo copo de uísque que meus dentes reclamaram gelados, e num impulso falei:
- Tio, agradeço a oportunidade, e tudo que me deu na vida, mas não quero o seu lugar não.
Ele me olhou arregalado, como se eu fosse um estranho. Quase engasgou. Engraçado essa capacidade de ler a expressão alheia, meu lado símio dizendo que ele não me reconhecia em absoluto. Fosse um enredo de mundo de novela, quem estava jantando com ele era algum irmão gêmeo meu, idêntico e maléfico, desaparecido até tomar meu lugar.
-Vou voltar para Minas, me assisti dizendo, recomeçar minha vida.
Um longo silêncio. Nós dois pensando no que diabos eu acabara de falar. Achei que ele fosse ter um treco, vermelho e suando. A adrenalina me fez rir, descontrolado.
Mas tinha certeza absoluta e irredutível que estava falando a verdade, principalmente para mim mesmo. Retomar minha vida.
Por fim, ele quase gritou, confrontando com olhos assustados e desesperados.
-Tá louco??
Agarrado na sensação daquele alívio feliz, respondi:
- Às vezes, a melhor alta do hospício é pular o muro.
__________________________
"E isto em segundo lugar: Manda-se naquele que não pode obedecer a si próprio. Tal é o modo do vivente."
Incapaz de lembrar que não gosto de beber enquanto como, meu tio pede ao garçom mais dois uísques, ainda que em meu copo os 21 anos de paladar empoçaram pela metade, quente e desagradável. Mas ele está empolgado e feliz, chegou o grande dia. Vejo a gordura brilhar em seus lábios glutões, a realização de finalmente anunciar sua aposentadoria, e entregar a mim o trono de seu legado, iluminando seus olhos de predador. Nos preparamos toda uma vida para isso, brindou-se, viva a conquista ao fim da grande jornada.
A única coisa errada sou eu, algo dentro de mim que não condiz com o momento. Por que sinto esse vazio, agora que venci?
Sonho acordado, em desacordo comigo mesmo.
Meu tio fez muito sucesso e riqueza na década de noventa, quando trocaram do dinheiro as caretas de patriarcas e coronéis carrancudos por animais selvagens, fauna brasileira. Viva a Real selva capitalista moderna, livre de zeros inúteis e planos desastrados.
Negociatas, contratos milionários e licitações importantes, ele soube explorar bandeirante as privatizações e a abertura econômica. Hoje me entrega o complexo império, ele já começando caducar, maquinaria gasta e murcha embaixo de banha e rugas. Dele aprendi tudo que sei profissionalmente, e contaminei-me com certos hábitos ridículos, vícios poderosos e múltiplos prazeres.
Será que isso que sinto é a falta de companhia feminina nessa mesa? Pode somente um homem idoso, e um já passando de meio século, jantando a sós, ser tão deprimente?
Minha vida é ímpar, eu ainda a procura de um par. Companheiras foram algumas, que até alucinei casar, mas eram todas executivas – não de terno e gravata como eu, mas também desinteressadas em qualquer ato por menos de um milhar de beija-flores. Existe diferença entre meu sucesso e o trabalho delas, até daquelas que por uma garoupa você leva tudo que puder? Moralmente não, sexualmente sequer, se não na ordem dos fatores, quem paga, quem recebe.
E o tal amor deixei em uma fotografia de uma garota de 14 anos, sorrindo décadas atrás. Minha vida atrás.
Eu preocupado em encontrá-la, como ao acaso na saída da escola, para um cortejo encabulado. Minha mãe veio me dizer que, ao fim das aulas, iria me mandar para a capital: São Paulo é o mundo do Brasil, vai com teu tio que ele tá rico por lá. Com questões muito mais importantes na época, no caso saber se o atacante do meu time jogaria na final do dia seguinte, respondi que tudo bem, achava ótimo. E assim, aos 15 anos, vinha trabalhar nessa cidade.
Coitada de mamãe, morreu só, nem tive tempo de transferi-la para um hospital melhor (e mais perto). Só fui visitar seu túmulo uma vez. Ela fez questão de ficar por lá, cidadezinha típica de Minas que outrora também chamei de minha.
Engolindo o resto etílico antes que o garçom levasse, pensei como daria tudo para voltar. Mas dessa tal saudade sempre corri, fraco que sou, não gosto da dor que ela provoca. Por que agora ela resolve apertar meu peito desse jeito, nessa noite que deveria ser o grande momento de minha carreira?
Meu tio não parava de falar, entre um gole e uma garfada, infinitos conselhos, histórias e obrigações que eu já sabia de cor. E brindes e gargalhadas, tentava me contaminar com sua mania, insistindo para que eu bebesse mais, feliz como nunca o vi.
E eu com dificuldades cada vez maiores de sustentar o sorriso, amarelando e começando a doer no meu rosto. De maduro à podre, logo caiu. Nunca me vi tão infeliz.
Ou só agora, desse meu cume, que percebo tal fato? Posso comprar, a vista e em espécie, essa felicidade que me escapa? Tenho poder nas mãos, tenho os bolsos transbordando e toda tralha inútil que quero ter.
Olhando fixo para o prato, e sua carcaça semidevorada, minha mente corre para longe, para uma paz e satisfação que sei que perdi. Quando? Onde?
A saudade esmaga tanto que é impossível ignorá-la. Deixei com meus sonhos, minhas esperanças e possibilidades alguma coisa que nunca cheguei a ter. Não tive tempo, não lhes dei atenção. Estala em minha cabeça, olhando o caminho que percorri e aonde vim parar, que fui um idiota. Que porra eu fiz da minha vida, pra que tanto dinheiro assim? O que vou fazer com ele?
A imagem da casa de minha mãe, uma fazenda e a vida crescendo vagarosa em volta, paz bucólica, sincera e tola, é a única certeza que tenho. É a única resposta para esse buraco em mim.
Respirei fundo, bebi tanto do novo copo de uísque que meus dentes reclamaram gelados, e num impulso falei:
- Tio, agradeço a oportunidade, e tudo que me deu na vida, mas não quero o seu lugar não.
Ele me olhou arregalado, como se eu fosse um estranho. Quase engasgou. Engraçado essa capacidade de ler a expressão alheia, meu lado símio dizendo que ele não me reconhecia em absoluto. Fosse um enredo de mundo de novela, quem estava jantando com ele era algum irmão gêmeo meu, idêntico e maléfico, desaparecido até tomar meu lugar.
-Vou voltar para Minas, me assisti dizendo, recomeçar minha vida.
Um longo silêncio. Nós dois pensando no que diabos eu acabara de falar. Achei que ele fosse ter um treco, vermelho e suando. A adrenalina me fez rir, descontrolado.
Mas tinha certeza absoluta e irredutível que estava falando a verdade, principalmente para mim mesmo. Retomar minha vida.
Por fim, ele quase gritou, confrontando com olhos assustados e desesperados.
-Tá louco??
Agarrado na sensação daquele alívio feliz, respondi:
- Às vezes, a melhor alta do hospício é pular o muro.
__________________________
"E isto em segundo lugar: Manda-se naquele que não pode obedecer a si próprio. Tal é o modo do vivente."
Sexta-feira, Outubro 31, 2008
Bruxa perneta
Antes de tudo, peço desculpas aos leitores por minha total ausência: mudança de casa, mestrado, texto rascunhado parado no meio....
Mas vamos ao que interessa: hoje é dia das bruxas. Ou Halloween, mas só pra quem fala inglês e consegue escrever esse treco corretamente.
Só que por essas terras tupiniquins corre um forte movimento de transformar o tal Ralouim em Dia do Saci, viva o folclore nacional! Abaixo a ditadura cultural imperialista com suas cabeças de morangas (não, não são abóboras!) e toda decoração de subúrbio norte-americano que copiamos dos filmes!
Na opinião deste que vos escreve, pouco interessa se é o cavaleiro sem cabeça ou a mula acéfala. Sempre achei a Sexta-feira 13 uma data muito mais sombria, se querem mesmo um dia pro sobrenatural. Cada ano cai num mês diferente, e o Jason sempre volta, sequência após sequência.
Engraçado que, esponja cultural de colônia que somos, uma série de outras coisas deveriam ser combatidas, seguindo a lógica do movimento saciniano: pinheiro de árvore de natal, neve falsa em pleno verão? Ou, pior, usar terno e gravata nos trópicos, longe da temperatura ambiente de geladeira? Aumenta aí o ar condicionado, que se dane o efeito estufa! (que também é culpa desses gringos!...)
Nessa minha terra potiguar, o vento constante torna o ambiente perfeito para os redemoinhos que tanto gostam os sacis. Aqui mesmo, nessa nova casa, mora um bem peralta. Quase arranquei seu capuz, mas o maldito é rápido. Vou tentar fumo, quem sabe ele vem...
O mais divertido? Dar parabéns às bruxas por aí, coitadas, às vezes demora para cair a ficha. E se alguma criança vier pedir doces, solto os cachorros nela, para inesquecíveis pesadelos futuros.
Feliz dia das bruxas pernetas. Ou dia do saci queimado na fogueira.
"Great cultural changes begin in affectation and end in routine."
Mas vamos ao que interessa: hoje é dia das bruxas. Ou Halloween, mas só pra quem fala inglês e consegue escrever esse treco corretamente.
Só que por essas terras tupiniquins corre um forte movimento de transformar o tal Ralouim em Dia do Saci, viva o folclore nacional! Abaixo a ditadura cultural imperialista com suas cabeças de morangas (não, não são abóboras!) e toda decoração de subúrbio norte-americano que copiamos dos filmes!
Na opinião deste que vos escreve, pouco interessa se é o cavaleiro sem cabeça ou a mula acéfala. Sempre achei a Sexta-feira 13 uma data muito mais sombria, se querem mesmo um dia pro sobrenatural. Cada ano cai num mês diferente, e o Jason sempre volta, sequência após sequência.
Engraçado que, esponja cultural de colônia que somos, uma série de outras coisas deveriam ser combatidas, seguindo a lógica do movimento saciniano: pinheiro de árvore de natal, neve falsa em pleno verão? Ou, pior, usar terno e gravata nos trópicos, longe da temperatura ambiente de geladeira? Aumenta aí o ar condicionado, que se dane o efeito estufa! (que também é culpa desses gringos!...)
Nessa minha terra potiguar, o vento constante torna o ambiente perfeito para os redemoinhos que tanto gostam os sacis. Aqui mesmo, nessa nova casa, mora um bem peralta. Quase arranquei seu capuz, mas o maldito é rápido. Vou tentar fumo, quem sabe ele vem...
O mais divertido? Dar parabéns às bruxas por aí, coitadas, às vezes demora para cair a ficha. E se alguma criança vier pedir doces, solto os cachorros nela, para inesquecíveis pesadelos futuros.
Feliz dia das bruxas pernetas. Ou dia do saci queimado na fogueira.
"Great cultural changes begin in affectation and end in routine."
Quinta-feira, Agosto 21, 2008
Perguntas e respostas
Algumas perguntas poderiam passar em branco, mas estão aí, rondando os desavisados, prontas a tomar de assalto uma conversa qualquer e, no meu caso, desejar que o diálogo ali termine. "Qual sua religião?" e todas as derivadas "Acredita em Deus?", "Jesus te salva?", "Acredita no que?"...
Não gosto de responder tais curiosidades, por motivos que me são bem claros. O primeiro é: por que quer saber? Normalmente é pelo aspecto social da questão, esse lado da religião como identificação de costumes e regras socialmente impostas, diagnóstico de um status que não consegue ir além de puro preconceito ridículo. "Sou evangélico" , "Sou católico", "Sou alguma coisa que me faz gritar isso com um adesivo num carro", como se isso fosse algo sobre fé, quando é mera afirmação da tribo que a pessoa defende, cara-pálida. Como se os evangélicos, católicos, céticos, budistas e macumbeiros fossem todos iguais entre si, raças de cães. Me preocupa a resposta, por que me preocupa o que a pessoa já pensa dela.
Acho a religião uma coisa muito, muito particular. Minha resposta para se acredito em Deus é: defina 'Deus'. Que Deus é esse? Um 'Papai do Céu', que puni as criancinhas más? Um Deus imaterial, além de uma 'super-mente-humana', que é Tudo (matéria ou não), sendo difícil de distingui-lo do Universo? Ou esse 'Deus' é algum profeta, um humano iluminado? Não é possível um diálogo se nos referimos a coisas completamente distintas, se não concordamos com uma linguagem comum.
Assim, se eu digo que sou Cético, muitos levantam objeções, incomoda o "Não crer em nada" quando o crer alheio é tão importante: entendo que as pessoas precisam crer na providência divina, precisam de respostas para perguntas inomenáveis, jusficam sua existência pela fé. Aí digo que sou Agnóstico, mesmo que pouco saiba da exatidão do termo, pois acredito tanto na Razão que digo que só posso ver até onde ela alcança, e é tão curta quanto o horizonte. Minha inteligência, meus sentidos, minha alma é pequena e limitada demais para certos assuntos, para a tal Verdade. Ensine cálculo avançado para uma formiga, ou filosofia a um gorila.
Não é fácil ser assim, ter fé que a fé é um subterfúgio (bendito e maldito) da minha eterna e irremediável ignorância. E escolher fatos, o que tenho, à crenças, que podem ser realmente corretas. Mas e se não são? Um pouquinho de História e vemos o quanto essa Fé, essa dita Verdade, pode trazer mais mal do que bem, tanta luz que mais cega que ilumina.
Só sei que nada sei. Mas esse não saber é duro, o Abismo de Nietzsche, que o coração maltratado pela vida pode cair. Não sejam tão duros com vocês mesmos, digo para quem quer saber das minhas crenças, tatear no escuro com uma pequena vela é difícil e doloroso, não sei se eu mesmo deveria fazer o que faço. Mais simples essa luz intensa, ampliada, artificial, mas que permite o sono dos justos. Dormir no escuro é difícil. Só tome cuidado para não se perder: nem sempre a luz forte é libertadora. A mariposa tem asas para voar aonde quiser, ou puder, mas fica batendo no vidro quente até morrer.

______________________________________________________
Esse texto estava mofando como rascunho há muito tempo, principalmente por tratar de um tema tão inflamado como a Religião. Porém, dado elogio de um colega para quem enviei, motivado pela recente discussão sobre o ensino do Criacionismo nas aulas de ciências, resolvi sair do anonimato...
Não gosto de responder tais curiosidades, por motivos que me são bem claros. O primeiro é: por que quer saber? Normalmente é pelo aspecto social da questão, esse lado da religião como identificação de costumes e regras socialmente impostas, diagnóstico de um status que não consegue ir além de puro preconceito ridículo. "Sou evangélico" , "Sou católico", "Sou alguma coisa que me faz gritar isso com um adesivo num carro", como se isso fosse algo sobre fé, quando é mera afirmação da tribo que a pessoa defende, cara-pálida. Como se os evangélicos, católicos, céticos, budistas e macumbeiros fossem todos iguais entre si, raças de cães. Me preocupa a resposta, por que me preocupa o que a pessoa já pensa dela.
Acho a religião uma coisa muito, muito particular. Minha resposta para se acredito em Deus é: defina 'Deus'. Que Deus é esse? Um 'Papai do Céu', que puni as criancinhas más? Um Deus imaterial, além de uma 'super-mente-humana', que é Tudo (matéria ou não), sendo difícil de distingui-lo do Universo? Ou esse 'Deus' é algum profeta, um humano iluminado? Não é possível um diálogo se nos referimos a coisas completamente distintas, se não concordamos com uma linguagem comum.
Assim, se eu digo que sou Cético, muitos levantam objeções, incomoda o "Não crer em nada" quando o crer alheio é tão importante: entendo que as pessoas precisam crer na providência divina, precisam de respostas para perguntas inomenáveis, jusficam sua existência pela fé. Aí digo que sou Agnóstico, mesmo que pouco saiba da exatidão do termo, pois acredito tanto na Razão que digo que só posso ver até onde ela alcança, e é tão curta quanto o horizonte. Minha inteligência, meus sentidos, minha alma é pequena e limitada demais para certos assuntos, para a tal Verdade. Ensine cálculo avançado para uma formiga, ou filosofia a um gorila.
Não é fácil ser assim, ter fé que a fé é um subterfúgio (bendito e maldito) da minha eterna e irremediável ignorância. E escolher fatos, o que tenho, à crenças, que podem ser realmente corretas. Mas e se não são? Um pouquinho de História e vemos o quanto essa Fé, essa dita Verdade, pode trazer mais mal do que bem, tanta luz que mais cega que ilumina.
Só sei que nada sei. Mas esse não saber é duro, o Abismo de Nietzsche, que o coração maltratado pela vida pode cair. Não sejam tão duros com vocês mesmos, digo para quem quer saber das minhas crenças, tatear no escuro com uma pequena vela é difícil e doloroso, não sei se eu mesmo deveria fazer o que faço. Mais simples essa luz intensa, ampliada, artificial, mas que permite o sono dos justos. Dormir no escuro é difícil. Só tome cuidado para não se perder: nem sempre a luz forte é libertadora. A mariposa tem asas para voar aonde quiser, ou puder, mas fica batendo no vidro quente até morrer.

______________________________________________________
Esse texto estava mofando como rascunho há muito tempo, principalmente por tratar de um tema tão inflamado como a Religião. Porém, dado elogio de um colega para quem enviei, motivado pela recente discussão sobre o ensino do Criacionismo nas aulas de ciências, resolvi sair do anonimato...
Quinta-feira, Agosto 14, 2008
No fim, só desculpas
O telefone não parava de tocar.
Ela, sentada encolhida, fitava com seus olhos já secos de mágoa o aparelho gritando desesperado, em um coro com a extensão que possuía o pequeno apartamento em pulsos de alarme.
Esperneando, a luz verde piscava febril, o telefone um bebê que chorava de fome, despertando uma urgência quase instintiva de tomar-lhe nos braços e calar sua angústia. Mas o acalanto desse ser eletrônico era um Alô, que ela não estava disposta a dar a ninguém, fechada em seu princípio de solidão.
Pensou em retirar o aparelho da tomada, atirar aquele irritante recém nascido pela janela, mas apenas abraçou as próprias pernas e escondeu o rosto, aguardando sem forças que a tortura acabasse, ainda que infinita de tão longa.
Por fim, o silêncio. Olhou para o aparelho inerte, a dúvida e culpa circulando em sua alma já atormentada por dores mais profundas. Deveria ter atendido? A resposta vinha da certeza de que nada importava, fosse quem fosse seriam palavras insignificantes. Ou pior, como defendia seu coração ferido, só podia ser ele.
Estremeceu, tão imersa nas próprias dúvidas, quando o telefone voltou a tocar.
Ela sabia que eram seus ouvidos que julgavam os toques mais altos do que anteriormente, quem sabe espalhando até pelos vizinhos a irritação de atendê-lo. Mas dela a vontade escapara, eclipsada pelas lágrimas que voltaram a caminhar no rosto, correndo dela como ela mesma faria se pudesse. Era ele, com a certeza de uma mãe que interpreta o choro do filho, cada toque era ele chamando por ela.
E o choro dela, aliviando a alma, fez com que a espera pelo silêncio parecesse mais curta, ainda que quem impunha um fim àqueles chamados era a companhia telefônica, e não a vontade de ambos.
Assim, tão logo se calou o fixo sobre a mesa da sala, e seu eco no quarto, zumbiu e cantou o celular sentado ao lado dela no sofá, assobiando eletronicamente a música que nunca mais podia ser ouvida impune, já que era o tema auditivo daquele amor, tão grande, agora sangrando.
Viu o nome dele brilhando no aparelho, assolada por lembranças de quantas vezes seu coração estremeceu alegre quando isso acontecia. Sim, tinha a certeza racional agora, era ele, a única pessoa que ela não queria atender, ainda que a única pessoa que agora importava no mundo.
Ia recusar a chamada, como se a caixa postal fosse capaz de gritar por ela: me deixe em paz com minha dor, já me feriu o suficiente, me deixe só, por favor. Mas como o amor não é tão fraco assim, virtuoso e viciado que é, segurou-lhe o dedão em paralisia, obrigando-a escutar aquela canção que ainda era mais doce que amarga, e olhar aquele nome pulsante que já tatuara no coração felicidade como nenhuma outra.
Mas doía tanto que também não pode atendê-lo, as sombras que se fortalecem nesses períodos de escuridão alimentando-a de resistência e mais mágoa. Logo ele desistiria dela, perceberia a insignificância de tudo aquilo, deixaria em paz sua pessoa atormentada e seguiria por caminhos que ela nunca saberia.
O celular também desistiu, como nas outras vezes nesses dois dias em que ela, desiludida, exilou-se em seu pequeno apartamento enquanto lambia as próprias feridas, tentava colar o quebra-cabeças de sua alma fragmentada depois daquela briga, fatal.
Desta vez, porém, ele não deixou recado algum. Nem brigando, nem conciliando, nem implorando, nem preocupado. E desse silêncio ela constatou que a moribunda relação falecera.
Alivio algum havia, muito pelo contrário, apertou-lhe o peito dor muito maior, vazio avassalador. Arrancaram o coração junto com o espinho; ela correu tão longe, fugindo da mágoa, que quando olhou para trás não podia mais vê-lo. E ele, finalmente, desistira de segui-la.
O fim, essa palavra tão curta e brusca como aquilo que tenta expressar, chegara. E ela mergulhou num vórtice intenso, como nunca antes sentira, de um buraco negro de dor e culpa. Memórias, emoções vastas, sonhos e possibilidades escorrendo líquidas para um luto tão forte que nem a escuridão mais profunda pode representar. Desespero maior que palavras, enfim.
***
Quase não percebeu que bateram levemente à porta. Se o raciocínio não dependesse tanto das emoções, mais até do que gostamos acreditar, com certeza ela especularia por que não tocaram a campainha, ou por que o interfone não avisou da visita. Mas como um espectro de atos automáticos, oníricos, ela se levantou e abriu a porta, sem pensar.
Ele segurava um desajeitado buquê de rosas, sorrindo tímido como se a porta fosse bater-lhe na cara a qualquer momento, sem saber o que dizer, muito menos o que fazer, também mancando do coração.
E, frente a frente, por fim as almas conseguiram se encontrar, quando a janela dela fixou na dele e tudo disseram uma a outra sobre o desespero e o amor, sobre saudade e perdão, nessa comunicação do olhar que somente os amantes entendem.
O beijo imprimiu em ambos a certeza silenciosa de que realmente fora um fim. Nada mais seria como antes, um capítulo acabara na página anterior.
Outro era o amor que partilhavam, quando a porta se fechou. Mais maduro, talvez, de fundações mais profundas. Resistente às intempéries, além da efemeridade das flores da primavera.
________________________________________
“Seu coração de cinza socada, que resistira sem quebrantos aos mais duros golpes da realidade cotidiana, desmoronou-se aos primeiros embates da saudade.”
Ela, sentada encolhida, fitava com seus olhos já secos de mágoa o aparelho gritando desesperado, em um coro com a extensão que possuía o pequeno apartamento em pulsos de alarme.
Esperneando, a luz verde piscava febril, o telefone um bebê que chorava de fome, despertando uma urgência quase instintiva de tomar-lhe nos braços e calar sua angústia. Mas o acalanto desse ser eletrônico era um Alô, que ela não estava disposta a dar a ninguém, fechada em seu princípio de solidão.
Pensou em retirar o aparelho da tomada, atirar aquele irritante recém nascido pela janela, mas apenas abraçou as próprias pernas e escondeu o rosto, aguardando sem forças que a tortura acabasse, ainda que infinita de tão longa.
Por fim, o silêncio. Olhou para o aparelho inerte, a dúvida e culpa circulando em sua alma já atormentada por dores mais profundas. Deveria ter atendido? A resposta vinha da certeza de que nada importava, fosse quem fosse seriam palavras insignificantes. Ou pior, como defendia seu coração ferido, só podia ser ele.
Estremeceu, tão imersa nas próprias dúvidas, quando o telefone voltou a tocar.
Ela sabia que eram seus ouvidos que julgavam os toques mais altos do que anteriormente, quem sabe espalhando até pelos vizinhos a irritação de atendê-lo. Mas dela a vontade escapara, eclipsada pelas lágrimas que voltaram a caminhar no rosto, correndo dela como ela mesma faria se pudesse. Era ele, com a certeza de uma mãe que interpreta o choro do filho, cada toque era ele chamando por ela.
E o choro dela, aliviando a alma, fez com que a espera pelo silêncio parecesse mais curta, ainda que quem impunha um fim àqueles chamados era a companhia telefônica, e não a vontade de ambos.
Assim, tão logo se calou o fixo sobre a mesa da sala, e seu eco no quarto, zumbiu e cantou o celular sentado ao lado dela no sofá, assobiando eletronicamente a música que nunca mais podia ser ouvida impune, já que era o tema auditivo daquele amor, tão grande, agora sangrando.
Viu o nome dele brilhando no aparelho, assolada por lembranças de quantas vezes seu coração estremeceu alegre quando isso acontecia. Sim, tinha a certeza racional agora, era ele, a única pessoa que ela não queria atender, ainda que a única pessoa que agora importava no mundo.
Ia recusar a chamada, como se a caixa postal fosse capaz de gritar por ela: me deixe em paz com minha dor, já me feriu o suficiente, me deixe só, por favor. Mas como o amor não é tão fraco assim, virtuoso e viciado que é, segurou-lhe o dedão em paralisia, obrigando-a escutar aquela canção que ainda era mais doce que amarga, e olhar aquele nome pulsante que já tatuara no coração felicidade como nenhuma outra.
Mas doía tanto que também não pode atendê-lo, as sombras que se fortalecem nesses períodos de escuridão alimentando-a de resistência e mais mágoa. Logo ele desistiria dela, perceberia a insignificância de tudo aquilo, deixaria em paz sua pessoa atormentada e seguiria por caminhos que ela nunca saberia.
O celular também desistiu, como nas outras vezes nesses dois dias em que ela, desiludida, exilou-se em seu pequeno apartamento enquanto lambia as próprias feridas, tentava colar o quebra-cabeças de sua alma fragmentada depois daquela briga, fatal.
Desta vez, porém, ele não deixou recado algum. Nem brigando, nem conciliando, nem implorando, nem preocupado. E desse silêncio ela constatou que a moribunda relação falecera.
Alivio algum havia, muito pelo contrário, apertou-lhe o peito dor muito maior, vazio avassalador. Arrancaram o coração junto com o espinho; ela correu tão longe, fugindo da mágoa, que quando olhou para trás não podia mais vê-lo. E ele, finalmente, desistira de segui-la.
O fim, essa palavra tão curta e brusca como aquilo que tenta expressar, chegara. E ela mergulhou num vórtice intenso, como nunca antes sentira, de um buraco negro de dor e culpa. Memórias, emoções vastas, sonhos e possibilidades escorrendo líquidas para um luto tão forte que nem a escuridão mais profunda pode representar. Desespero maior que palavras, enfim.
***
Quase não percebeu que bateram levemente à porta. Se o raciocínio não dependesse tanto das emoções, mais até do que gostamos acreditar, com certeza ela especularia por que não tocaram a campainha, ou por que o interfone não avisou da visita. Mas como um espectro de atos automáticos, oníricos, ela se levantou e abriu a porta, sem pensar.
Ele segurava um desajeitado buquê de rosas, sorrindo tímido como se a porta fosse bater-lhe na cara a qualquer momento, sem saber o que dizer, muito menos o que fazer, também mancando do coração.
E, frente a frente, por fim as almas conseguiram se encontrar, quando a janela dela fixou na dele e tudo disseram uma a outra sobre o desespero e o amor, sobre saudade e perdão, nessa comunicação do olhar que somente os amantes entendem.
O beijo imprimiu em ambos a certeza silenciosa de que realmente fora um fim. Nada mais seria como antes, um capítulo acabara na página anterior.
Outro era o amor que partilhavam, quando a porta se fechou. Mais maduro, talvez, de fundações mais profundas. Resistente às intempéries, além da efemeridade das flores da primavera.
________________________________________
“Seu coração de cinza socada, que resistira sem quebrantos aos mais duros golpes da realidade cotidiana, desmoronou-se aos primeiros embates da saudade.”
Segunda-feira, Julho 28, 2008
Assepsia criativa?
Vivem me pedindo por mais luz,
Mais felicidade e amor,
Mais memórias felizes e musas cantadas.
Não fosse isso tão orgânico,
Escreveria sobre tudo que querem
As belezas e as cores e a meia verdade.
A graça é um mundo sem graça,
Sem aperto no peito, só dia sem noite,
Saúde e fartura de toda sorte?
Não fosse tão vivo, que brota sem controle,
Até escreveria assim, sem vida.
Mas não vale a pena, o papel e o autor.
“se não houvesse tristeza nem miséria, se em todo o lugar corressem águas sobre as pedras, se cantassem aves, a vida podia ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe arrancar as pétalas, por serem já sabidas as respostas, ou por serem estas de tão pouca importância, que descobri-las não valeria a vida de uma flor.”
Mais felicidade e amor,
Mais memórias felizes e musas cantadas.
Não fosse isso tão orgânico,
Escreveria sobre tudo que querem
As belezas e as cores e a meia verdade.
A graça é um mundo sem graça,
Sem aperto no peito, só dia sem noite,
Saúde e fartura de toda sorte?
Não fosse tão vivo, que brota sem controle,
Até escreveria assim, sem vida.
Mas não vale a pena, o papel e o autor.
“se não houvesse tristeza nem miséria, se em todo o lugar corressem águas sobre as pedras, se cantassem aves, a vida podia ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe arrancar as pétalas, por serem já sabidas as respostas, ou por serem estas de tão pouca importância, que descobri-las não valeria a vida de uma flor.”
